"Manda-me a fatura das 40 caixas." O cliente escreve isto às 18h40, no WhatsApp, e tu já sabes o que vem a seguir. Abres o ERP e procuras a ficha dele. Vês a que preço é que ele paga a água desde que renegociou em março. Confirmas se a fatura é para o restaurante ou para a empresa de catering. Verificas se as 40 caixas saíram mesmo todas ontem ou se ficaram algumas para segunda. Só depois escreves a fatura.
Escrever a mensagem demora dez segundos. O resto demora dez minutos, e é nesses dez minutos que aparecem os erros.
A boa notícia é que a parte dos dez segundos já está resolvida, e de graça. A má notícia é que a parte dos dez minutos não vem incluída no mesmo pacote. Este artigo explica porquê, e o que é preciso para a resolver.
O que já é grátis (e funciona)
Desde maio de 2025 que pelo menos um software de faturação português deixa ditar ou escrever no WhatsApp, ou no Telegram, o cliente, o NIF, o artigo e o valor. O sistema cria a fatura em rascunho e devolve um link de pré-visualização, sem custo extra no plano. Está bem feito.
Se faturas como prestador de serviços, provavelmente é tudo o que precisas: um cliente diferente por semana, valores negociados caso a caso e nada em stock. Não pagues a ninguém para te fazer isto.
Repara, porém, em como funciona: o preço do rascunho é o preço que tu ditas. O NIF e a quantidade também são os que tu ditas. O sistema transcreve bem, mas não confere nada, porque não tem onde conferir. Não sabe que aquele cliente tem tabela própria, nem que há duas empresas por trás do mesmo número de telemóvel, nem que o armazém só tinha 9 caixas de azeite.
Ditar a fatura tirou-te o teclado, mas não te tirou o trabalho. A memória do sistema continuas a ser tu.

Três erros numa linha ditada
O exemplo que se segue é inventado, mas tem números que qualquer distribuidor reconhece.
Uma distribuidora de bebidas e mercearia em Leiria tem 140 clientes na restauração. Na tabela geral, a caixa de água custa €4,60. Desde março, o Tasco do Zé paga €4,10 quando encomenda mais de 30 caixas, a 30 dias.
O dono do Tasco tem duas sociedades: o restaurante e uma empresa de catering para eventos, cada uma com o seu NIF. A encomenda de ontem foi de 40 caixas de água e 12 de azeite. O armazém só tinha 9 caixas de azeite, por isso as outras 3 seguem na segunda.
Ao fim do dia, o vendedor dita: "Fatura Tasco do Zé, 40 água a 4,60, 12 azeite a 7,90." Ficam três erros numa só linha:
- Preço. A água devia ir a €4,10. São €20 a mais numa só fatura. O cliente vai reclamar, e com razão.
- Entidade e NIF. A encomenda era para o evento de sábado, portanto devia ir para a empresa de catering. O vendedor disse "Tasco do Zé" e o rascunho ficou com o NIF do restaurante.
- Quantidade. Saíram 9 caixas de azeite, não 12. Estás a faturar 3 caixas que ainda estão na tua prateleira.
Num rascunho, tudo isto se corrige. Mas o rascunho só ajuda se alguém o ler com atenção, e quem dita às 18h40 é precisamente quem não tem tempo para isso.
Se a fatura for emitida assim, já não há borracha. Em Portugal, uma fatura emitida e comunicada não se apaga. Corrige-se com uma nota de crédito e uma fatura nova, que leva nova numeração e novo ATCUD. Isso custa uma chamada do cliente, dois documentos a mais, uma conta corrente baralhada e uma tarde perdida. Tudo por €20.
E repara que nenhum destes erros é de transcrição. A voz foi percebida na perfeição. O erro está no que o vendedor sabia àquela hora, de cabeça, no carro.
O que o rascunho tem de ir buscar ao ERP
Para o rascunho sair certo sem depender da memória de quem dita, alguém tem de ler o ERP antes de o escrever. Na prática, são quatro leituras:
- A ficha do cliente e todas as entidades associadas ao número que escreveu. Se o mesmo telemóvel encomenda para duas empresas, o agente pergunta para qual é, em vez de escolher sozinho. O NIF vem da ficha e não do ditado. Além disso, é validado: o NIF português tem um dígito de controlo, e um número com um algarismo trocado nem chega ao rascunho.
- A tabela de preços que se aplica. Inclui a tabela do cliente, os escalões por quantidade, as campanhas em vigor e as condições de pagamento. O preço vem do sítio onde o comercial o registou quando o negociou, não da memória de ninguém.
- O que saiu de facto. Isto está na guia de remessa ou no documento de saída do armazém. Fatura-se o que foi entregue, não o que foi pedido.
- O stock disponível, quando a fatura acompanha uma venda nova. Não conta o stock físico, conta o que ainda não está reservado para outro cliente. Dez caixas na prateleira com oito já vendidas são duas caixas.
Com isto, o vendedor só tem de escrever: "fatura do Zé de ontem, é para o evento". O agente responde com um rascunho em que cada linha diz de onde veio:
Rascunho para a empresa de catering do Zé (NIF da ficha de cliente). 40 cx água a €4,10 — tabela do cliente, escalão acima de 30. 9 cx azeite a €7,90 — 3 ficam pendentes na guia de ontem. €235,10 sem IVA, a 30 dias. Confirmas?
Quem confirma é uma pessoa. O agente lê o ERP, não emite nada. A emissão continua no software certificado, pela camada do próprio ERP, que trata da numeração por série, do ATCUD e do IVA. A conversa serve para chegar ao rascunho certo, e a fatura continua a ser emitida pelo sistema que a AT reconhece.

Porque é que um chatbot que "completa os dados" não serve
A tentação é ligar um modelo de linguagem genérico ao WhatsApp e pedir-lhe que complete o que falta. Ele vai completar, porque é exatamente para isso que serve. Se não tiver o preço, devolve um preço plausível. Numa fatura, "plausível" é o pior adjetivo possível.
A diferença entre um chatbot e um agente grounded não está no modelo. Está em saber de onde vem cada número. Nos sistemas que montamos, as regras são estas:
- Cada valor do rascunho aponta para um registo concreto do ERP: a linha da tabela, a ficha ou a guia.
- Se esse registo não existir, o agente não preenche o campo. Pergunta.
- O acesso ao ERP é só de leitura.
- Tudo fica registado: quem pediu, de que número, o que foi lido, o que foi proposto, quem confirmou e quando.
Quando o cliente liga a reclamar, abres esse registo e vês em segundos se o erro veio do pedido, da tabela de preços ou de quem confirmou. Com um chatbot que adivinha, nunca sabes.
O mesmo problema fora da distribuição
O padrão repete-se em qualquer negócio onde o preço depende de um contrato e a quantidade depende do que aconteceu de facto.
Calibração. Um laboratório fatura a um cliente industrial com contrato anual, com preço por tipo de instrumento: paquímetro, micrómetro, manómetro. O técnico manda: "fatura a visita à fábrica, 23 instrumentos". O rascunho certo vai ao sistema de qualidade ver que certificados foram emitidos nessa visita e aplica o preço de contrato a cada tipo. Deixa de fora os equipamentos declarados não conformes que aguardam decisão do cliente, se o contrato disser que esses não se faturam. Nenhum ditado sabe isto.

Lares e saúde. A mensalidade de um residente é fixa. Os extras do mês não são: fraldas, medicação não comparticipada, cabeleireiro. Quando a família pede "a fatura de outubro", o rascunho tem de vir do registo de consumos, não da memória de quem está de turno.
Faturação eletrónica noutros países. No Chile, cada documento tributário eletrónico usa um folio autorizado pelo SII e vai assinado digitalmente. Trabalhamos com isto todos os dias no FactorCL. O pedido pode nascer numa mensagem, mas o folio, a assinatura e o envio ao SII pertencem ao sistema e nunca à conversa. Em Portugal, com o ATCUD e as séries, o princípio é o mesmo.
A objeção: "se ditar já é grátis, porque havia de pagar mais?"
É uma objeção justa, e a resposta honesta começa por concordar: não pagues pela conversa. A conversa é a parte barata, e fica mais barata todos os meses.
O que se paga é a integração. Primeiro, ligar ao teu ERP, que muitas vezes é um PHC num servidor do escritório e não deve ficar com portas abertas para a internet. Depois, mapear as tabelas de preços como tu as usas de facto, com as exceções que só o teu comercial conhece. Por fim, manter tudo a funcionar quando o ERP é atualizado.
Isto custa mais do que um bot. Muitas vezes custa mais do que a própria licença do ERP: o PHC GO, por exemplo, começa nos €38,36 por mês. Convém dizê-lo sem rodeios.
Por isso, faz a conta ao contrário. Pensa no que custa uma fatura errada: a nota de crédito, a fatura nova, a chamada e a correção da conta corrente. Imagina que isso come meia hora a alguém. Com 15 correções por mês, são sete horas e meia, só a desfazer. E ainda há o custo que não aparece: o cliente que paga €20 a mais, não repara, e um dia repara.
Há também um custo novo. Desde 1 de outubro, a Meta cobra por mensagem as respostas de serviço no WhatsApp, acima das 1.000 grátis por mês por número. Um rascunho que obriga a três mensagens de "qual era o preço?" gasta três.
Se tens poucos clientes, sem tabelas próprias e sem stock, fica com a solução grátis. Se tens tabelas por cliente, várias entidades por contacto e guias que nem sempre batem certo com a encomenda, o problema nunca foi o teclado.

O próximo passo: conta as tuas notas de crédito
Antes de falares com qualquer fornecedor, nós incluídos, tira do ERP as notas de crédito dos últimos três meses. Separa-as por motivo:
- preço errado;
- NIF ou entidade errados;
- quantidade faturada que não foi entregue.
Se forem uma ou duas, o rascunho grátis serve-te bem. Se for uma por semana, já sabes onde está o dinheiro.
Manda-nos esse número para hello@leiritech.com. Começamos por um diagnóstico com acesso só de leitura ao teu ERP. Com as tuas faturas reais, mostramos quais teriam saído certas à primeira e o que faltaria ligar para isso acontecer. Falas diretamente com quem escreve o código.
