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Pescas

Quinhão da tripulação: da venda em lota, conferível

O quinhão de cada pescador, calculado da venda em lota — e conferível linha a linha

"Tá mal feita a conta." Quem é armador ou faz as contas de um barco já ouviu isto no cais, no fim de uma campanha. Às vezes o pescador tem razão, às vezes não, e quase nunca há forma rápida de mostrar quem a tem. A conta existe, mas está numa folha de Excel que só uma pessoa percebe. As notas de venda estão numa pasta, as faturas do gasóleo noutra, e a regra das partes está na cabeça do mestre.

A campanha de verão do atum está a fechar nos Açores e na Madeira. É agora que se fecham as contas com a tripulação. É também agora que um erro de lançamento vale dinheiro a sério, a dividir por dez ou doze pessoas que vão conferir cada euro.

Este artigo explica como tirar o quinhão diretamente das vendas em lota e das despesas comuns do barco, de forma que qualquer tripulante possa ver de onde vem cada número. Não é magia nenhuma: são dados que já tens, organizados e auditados.

O problema não é a regra, é o caminho até ela

A remuneração "à parte" é tão antiga como a pesca, e a lei reconhece-a. O regime do contrato de trabalho a bordo das embarcações de pesca (Lei n.º 15/97) diz que, se o pescador é pago em função do pescado, o contrato indica a percentagem da participação e o modo de a calcular. Portanto a regra está escrita, ou devia estar.

O problema está no caminho entre a lota e o recibo de cada homem:

  • As vendas chegam aos bocados. Uma descarga em Ponta Delgada, outra na Horta, uma terceira noutro porto porque o peixe apareceu mais longe. Cada uma gera a sua nota de venda, com as taxas e os descontos retidos na lota. Se uma delas não entra na folha, o monte fica mais pequeno e ninguém repara até alguém reparar.
  • As despesas comuns não respeitam o calendário. O gasóleo de setembro é faturado em outubro. O isco vivo é pago em dinheiro e fica num talão. O gelo vem numa fatura mensal que mistura dois barcos do mesmo armador.
  • A regra tem exceções. O mestre leva duas partes, o motorista leva uma e meia, o pescador que entrou a meio da campanha só conta a partir da viagem em que embarcou.

Cada uma destas coisas é simples. Juntas, numa folha com fórmulas copiadas de ano para ano, dão uma conta que ninguém consegue reconstruir. Quando um pescador desconfia, a resposta acaba por ser "confia em mim", e isso gasta confiança.

Trabalhador da lota regista numa tablet as caixas de atum com gelo acabadas de descarregar, com o barco de salto e vara ao fundo

Um exemplo trabalhado, com números

Vamos pôr números num caso ilustrativo, com valores redondos mas plausíveis. É um barco de salto e vara com dez tripulantes, e o mês é o último da campanha.

Vendas em lota (4 descargas): 48.600 €
Taxas e descontos retidos na lota (6%, ilustrativo): −2.916 €
Despesas comuns: gasóleo 7.800 €, isco 3.200 €, gelo 900 €, rancho 1.400 € = −13.300 €
Monte líquido: 32.384 €

A regra deste barco é metade para o armador e metade para a tripulação, portanto a tripulação fica com 16.192 €. As partes são 2 para o mestre, 1,5 para o motorista e 1 para cada um dos oito pescadores, o que dá 11,5 partes. Cada parte vale 1.408 €. O mestre recebe 2.816 €, o motorista 2.112 € e cada pescador 1.408 €.

Até aqui é aritmética de escola. Agora vê o que acontece com dois erros banais.

Erro 1: uma descarga de 6.100 € ficou de fora, porque a nota de venda da outra ilha chegou por email e ninguém a lançou. O monte cai 5.734 € (o valor já descontado das taxas), a metade da tripulação cai 2.867 € e cada parte perde 249,30 €. O pescador que desconfiou tinha razão, e perdeu 249 € por isso.

Erro 2: uma fatura de gasóleo de 1.950 € foi lançada duas vezes, uma pelo talão e outra pela fatura mensal. O monte cai 1.950 €, a tripulação perde 975 € e cada parte perde 84,78 €.

Nenhum destes erros vem de má-fé. Vêm de ter os dados em sítios diferentes e de a conta ser feita à mão, uma vez por campanha, com pressa. E ambos se apanham de forma mecânica: cruzando as descargas registadas contra as notas de venda recebidas, e cada despesa contra o documento que a suporta.

O que um sistema fundado nos teus dados faz aqui

A proposta é simples e não substitui ninguém. Um sistema lê, só em modo de leitura, o que já existe: as notas de venda da lota (em PDF, exportação ou o formato em que chegam), as faturas e os talões das despesas comuns lançados no teu ERP ou contabilidade, o registo de quem embarcou em cada viagem e a regra de partilha do contrato. Com isso:

  1. Calcula o quinhão de forma determinística, com a vossa regra e não com uma regra genérica.
  2. Liga cada número à sua origem. A parte de 1.408 € abre-se no monte, o monte abre-se nas quatro notas de venda e nas despesas, e cada despesa abre-se no documento. É isto que quer dizer auditado: qualquer valor tem um caminho de volta até ao papel.
  3. Levanta as anomalias antes de fechares. Uma descarga sem nota de venda, uma despesa lançada duas vezes, um tripulante sem viagem registada, um gasóleo fora do padrão das outras marés.

Responsável administrativa de um armador confere no ERP a tabela de vendas por descarga e despesas comuns, com o barco atracado visto pela janela

A parte de IA entra depois do cálculo e não o substitui. Quem faz as contas pode perguntar em português corrente: "quanto rendeu a descarga de dia 14 na Horta?" ou "que despesas de gasóleo entraram este mês e de que faturas?". A resposta vem dos teus registos e cita a nota de venda ou a fatura de onde saiu. Se o dado não existe, a resposta é "não encontro essa descarga", e não um número inventado. É essa a diferença para um chatbot que adivinha: aqui o modelo não faz contas de cabeça nem escreve em lado nenhum. Consulta, mostra a fonte, e cada pergunta fica registada.

"Mas os pescadores não querem ecrãs"

É a objeção mais honesta, e está certa. Ninguém vai pôr um pescador a navegar num ERP. Também não é preciso.

O que o pescador quer é ver a sua conta e perceber de onde vem. Pode recebê-la numa mensagem de WhatsApp com cinco linhas: vendas do mês, despesas comuns, monte, valor da parte e número de partes. Se quiser ver o detalhe, pede-o ao armador, e o armador abre-o em segundos em vez de ir procurar à pasta. A discussão no cais passa de "tá mal feita" para "a descarga de dia 22 não aparece", e isso resolve-se num telefonema à lota.

Pescador sentado no cais lê no telemóvel a mensagem com o resumo da sua parte, com o barco de pesca atracado ao fundo

A segunda objeção costuma ser "faço isto no Excel há vinte anos e nunca houve problema". Talvez não tenha havido. Mas faz uma pergunta simples à tua folha: se amanhã quem a mantém ficar doente, alguém consegue reconstruir o quinhão de agosto a partir dos documentos? Se a resposta demora mais de meia hora, o risco já está lá.

Porque isto faz sentido nas ilhas, e agora

As linhas continentais de apoio à IA deixaram as Regiões Autónomas de fora, e o que as ilhas oferecem hoje é sobretudo formação, eventos e hubs. Isso tem valor, mas não fecha a conta do teu barco. O que fazemos é outra coisa: um sistema pequeno, ligado aos dados que já tens, com âmbito e preço fechados, que não depende de nenhum aviso de candidatura para arrancar.

E o momento é este. A campanha está a fechar, as notas de venda do verão ainda estão frescas e os tripulantes ainda estão por perto para conferir. Daqui a três meses, reconstruir agosto é arqueologia.

Próximo passo

Escolhe uma campanha já fechada, por exemplo a do verão passado. Junta as notas de venda, as despesas comuns e a regra de partilha, e fazemos a reconciliação contigo: o quinhão recalculado, cada número ligado ao documento, e a lista do que não bate certo. Se bater tudo certo, ficas com a prova disso. Se não bater, ficas a saber quanto e onde.

Somos uma equipa pequena em Leiria e quem fala contigo é quem escreve o código. Escreve para hello@leiritech.com ou liga para o +351 914 572 595.

Escrito por

Equipa Leiritech

A equipa Leiritech — a construir software com inteligência artificial a partir de Leiria, Portugal.

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