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Faturação

IVA entre continente, Açores e Madeira, linha a linha

"O cliente é da Terceira, por isso levou 16%." É assim que muita fatura sai, todos os dias, de empresas que vendem entre o continente, os Açores e a Madeira. A frase parece lógica, mas está errada na metade dos casos. E o erro só aparece quando o contabilista do cliente devolve a fatura, quando aparece a nota de crédito ou, pior, numa inspeção.

O país tem três tabelas de IVA. A taxa normal é de 23% no continente, 16% nos Açores e 22% na Madeira, e as taxas intermédia e reduzida também mudam de região para região. Quem opera só em Leiria nunca pensa nisto. Quem tem armazém em Ponta Delgada, clientes no Funchal e fornecedores na Maia pensa nisto em cada fatura. E o ERP raramente pensa por ti.

A regra não olha para a morada do cliente

O artigo 6.º do Código do IVA diz onde cada operação se localiza. Os n.ºs 16 e 17, que desde a Lei n.º 12/2022 substituíram o antigo Decreto-Lei 347/85, aplicam os mesmos critérios ao continente e às duas regiões autónomas, "com as devidas adaptações". Na prática, para escolher a taxa:

  • Bens com transporte: conta o sítio onde os bens estão quando o transporte começa. Uma palete que sai da Maia para um cliente em Angra leva 23%. Uma palete que sai de Ponta Delgada para um cliente em Lisboa leva 16%.
  • Serviços a empresas (B2B): a regra geral é o local do adquirente. Um serviço prestado por uma empresa do continente a uma empresa açoriana leva 16%.
  • Serviços a particulares (B2C): a regra geral é a sede do prestador. O mesmo serviço, prestado a um particular nos Açores por uma empresa do continente, leva 23%.
  • Exceções: serviços ligados a imóveis, transporte de passageiros, restauração e acesso a eventos seguem regras próprias.

A morada do cliente quase nunca chega para decidir. Depende do que vendeste, de onde saiu e de quem comprou. E muitos ERPs vão buscar a taxa à ficha do cliente.

Operador de armazém em Ponta Delgada confirma no terminal portátil a expedição de uma palete, com o porto ao fundo

Um exemplo com números: a mesma palete, duas taxas

Imagina uma distribuidora alimentar com sede em Ponta Delgada e dois armazéns, um em São Miguel e outro na zona de Lisboa. Vende 10.000 € de mercadoria a um restaurante da Terceira.

Se a palete sai de São Miguel, a fatura leva 16%, ou seja, 1.600 € de IVA. Se sai de Lisboa, porque o artigo estava em rutura nas ilhas, leva 23%, ou seja, 2.300 €. São 700 € de diferença na mesma venda, ao mesmo cliente e com o mesmo produto. A única coisa que mudou foi o armazém.

Se o ERP vai buscar a taxa à ficha do cliente ("cliente Açores = 16%"), a segunda fatura sai com 700 € de IVA a menos. Numa inspeção, quem responde pela diferença és tu, não o cliente. Se o erro for ao contrário (23% numa venda que devia levar 16%), o cliente empresarial recebe uma fatura que o contabilista dele vai questionar, e tu acabas a emitir uma nota de crédito e uma fatura nova.

Agora multiplica pelo número de vezes por mês em que um artigo sai do "outro" armazém porque o navio atrasou.

Na calibração: duas taxas na mesma fatura

Um laboratório de metrologia do continente manda um técnico calibrar os manómetros de uma fábrica de lacticínios em São Miguel. Como o serviço é prestado a uma empresa, a regra geral aponta para o local do adquirente, e essas linhas levam 16%. Na mesma visita, o técnico deixa um manómetro novo para substituir um que chumbou, expedido do laboratório. Esse é uma transmissão de um bem que saiu do continente, e essa linha leva 23%.

É uma fatura com duas linhas e duas taxas, e cada uma está certa. Por isso a verificação tem de ser feita linha a linha e não fatura a fatura. Um ERP configurado para dar "uma taxa por cliente" erra aqui sempre, mesmo que o resto esteja bem configurado.

Técnica de calibração regista no tablet a ordem de serviço junto a um manómetro numa fábrica de lacticínios

Na saúde: quando o IVA é custo

Um lar IPSS ou uma clínica cuja atividade está isenta não recupera o IVA que paga. Para essas entidades, a taxa regional não é um pormenor contabilístico, é dinheiro. Num consumível à taxa normal comprado por um lar nos Açores, a diferença entre um fornecedor que expede do continente (23%) e um que vende do stock local (16%) são sete pontos percentuais de custo puro. Na Madeira, a diferença é de um ponto. Saber de que armazém saiu cada compra deixa de ser uma curiosidade e passa a ser um critério de compra.

Na faturação eletrónica: a AT vê a região em cada linha

No SAF-T (PT), cada taxa é declarada com o seu espaço fiscal (PT, PT-AC ou PT-MA). O código QR da fatura tem um bloco para cada espaço fiscal, e a declaração periódica separa as operações por região. A informação para te apanhar já está toda nos documentos que envias. Muitas vezes, o que falta é alguém do teu lado cruzá-la antes de a AT o fazer.

O SAF-T também traz, em cada fatura, os campos de origem e destino da mercadoria (ShipFrom e ShipTo). Ou seja, o dado que decide a taxa dos bens, o sítio de onde a mercadoria saiu, normalmente já está no teu próprio sistema.

Como verificamos, sem mexer no teu ERP

O que fazemos não é um chatbot que "sabe IVA". É uma camada de leitura sobre os teus dados:

  1. Ligação só de leitura ao ERP (um utilizador de base de dados só com permissão de leitura) ou ao SAF-T mensal que já geras. Não criamos nem alteramos documentos.
  2. Regras determinísticas, escritas em código e revistas com o teu contabilista. Para cada linha, a regra vê se é um bem ou um serviço, de onde saiu ou quem é o adquirente, e qual o espaço fiscal declarado. Daí calcula a taxa esperada e compara-a com a taxa aplicada.
  3. O que não cabe na regra não é adivinhado. Vendas com entrega direta do fornecedor, operações em cadeia e serviços ligados a imóveis vão para uma lista "rever com o contabilista", com o número do documento.
  4. Perguntas em linguagem natural, na consola ou no WhatsApp: "Que faturas de setembro têm bens expedidos de Lisboa com 16%?" A resposta vem com o número de cada documento e de cada linha, para poderes abrir e confirmar.
  5. Tudo auditado: cada pergunta, a consulta que gerou e a resposta ficam registadas.

O modelo de linguagem só faz duas coisas: traduz a tua pergunta para a consulta certa e explica o resultado. Quem decide a taxa é a regra, e quem decide corrigir és tu e o teu contabilista.

Empresário e contabilista no Funchal revêem no ecrã as linhas de fatura assinaladas, com a cidade ao fundo

Porque é que um assistente genérico não serve aqui

Pergunta a um chatbot genérico "vendo para os Açores, que IVA aplico?" e é muito provável que responda 16%, porque o destino é os Açores. Para bens que saem do continente, a resposta está errada. E mesmo que acerte na regra, não sabe de que armazém saiu a tua palete de ontem. Essa resposta não está na internet, está na tua guia de transporte. Uma IA fundada nos teus dados responde a partir do documento. Um chatbot responde a partir do que parece plausível. Em matéria fiscal, a diferença conta.

"O meu contabilista já vê isso"

Vê, mas ao fim do mês, sobre o SAF-T, normalmente por amostragem, e depois de as faturas terem chegado aos clientes. Nessa altura, corrigir significa notas de crédito, faturas novas e um telefonema desconfortável. A verificação linha a linha não substitui o contabilista. Entrega-lhe uma lista curta das linhas que não batem com a regra, em vez de uma pilha para rever.

E "o ERP já tem as taxas configuradas"? Tem, até abrires um segundo armazém, até um cliente mudar a sede ou até começares a vender serviços além de bens. A configuração está certa no dia em que é feita e não volta a ser verificada.

Ficaste fora da linha de IA, mas isto não depende de aviso nenhum

A linha "IA nas PME" do PRR (avisos 03/C05-i14.01/2025 e 07/C05-i14.01/2026) era só para estabelecimentos nas NUTS II do continente, e já fechou. Os apoios regionais à adoção de IA ainda estão a ser definidos. Não vale a pena esperar por eles para isto. Uma verificação só de leitura sobre o teu histórico de faturação é um projeto pequeno, e o primeiro mês analisado mostra logo se há dinheiro em jogo.

Operar entre três tabelas de IVA não é uma desvantagem de quem está nas ilhas. É uma realidade para a qual as ferramentas feitas a pensar no continente não foram desenhadas. É exatamente por isso que esta verificação vale mais no Funchal ou em Ponta Delgada do que em Leiria.

Este artigo descreve as regras gerais de localização e não é aconselhamento fiscal. Confirma cada caso concreto com o teu contabilista certificado.

Próximo passo

Pega num mês de faturação, o SAF-T que já envias à AT. Nós passamo-lo pelas regras e devolvemos a lista das linhas em que a taxa aplicada não bate com a origem da mercadoria ou com o adquirente, com o número do documento e da linha. Tu e o teu contabilista decidem o que fazer com ela. Escreve para hello@leiritech.com ou liga para o +351 914 572 595. Do outro lado está quem escreve o código.

Escrito por

Equipa Leiritech

A equipa Leiritech — a construir software com inteligência artificial a partir de Leiria, Portugal.

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