Precisas de pôr cinco produtos no catálogo. As características estão numa ficha do fornecedor, a referência está no programa de gestão e o texto comercial ainda está por escrever. Pedes ajuda à IA. Em segundos, aparece uma descrição convincente. Até reparares que a caixa passou a ser «hermética» e «adequada para alimentos». A ficha não diz nenhuma das duas coisas.
O trabalho não ficou feito. Ficou mais uma promessa para conferir antes de um cliente confiar nela.
Este é um bom primeiro exercício de IA para uma PME, precisamente porque tem limites claros: cinco fichas aprovadas, cinco rascunhos, uma pessoa responsável pela revisão e nenhuma publicação automática. O objetivo não é encher o catálogo. É perceber se consegues chegar a descrições aprovadas com menos trabalho, sem acrescentar características que ninguém confirmou.
Não precisas de automatizar o catálogo inteiro
Se ainda estás a experimentar, não és uma exceção. O Barómetro HeraPrime, publicado em outubro de 2026, recolheu respostas de 57 empresas até 250 pessoas. Nessa amostra, 39 usavam IA, mas apenas oito a utilizavam de forma regular e estruturada. A participação foi voluntária e 72% das empresas estavam na Área Metropolitana de Lisboa. Não são números representativos de todas as PME portuguesas. Mostram, naquela amostra, uma distância importante entre experimentar e ter uma rotina de trabalho.
Nas descrições de produto, essa distância é fácil de reconhecer. Os dados estão espalhados entre o ERP, os documentos do fornecedor e as mensagens do comercial. Alguém experimenta uma ferramenta, mas ninguém fica responsável pela revisão. Falta experiência para definir o que a IA pode alterar. E o sucesso mede-se por «escreveu depressa», não pelo tempo até o texto estar pronto a usar.
Um ensaio pequeno permite enfrentar estes quatro problemas sem lançar um projeto de integração. Se estás a preparar o catálogo para o Natal, por exemplo, escolhe cinco referências que realmente precisam de texto. Não há razão para gerar centenas de descrições antes de saber se o método funciona nas primeiras cinco.

Uma descrição convincente não é uma descrição comprovada
Uma IA de uso geral produz texto a partir de padrões que aprendeu. Se lhe pedires uma descrição apelativa de uma caixa com tampa, pode associar esse produto a expressões frequentes: «proteção contra humidade», «fecho seguro», «ideal para alimentos». O texto pode soar natural sem corresponder à referência que vendes.
Mesmo quando forneces uma ficha, o risco não desaparece. O modelo pode confundir variantes, interpretar mal uma tabela ou transformar uma ausência de informação numa conclusão. «Não está indicada uma restrição» não significa «é adequado para qualquer utilização».
Por isso, a regra deve ser mais precisa do que «não inventes»: cada característica publicada tem de ser sustentada por uma fonte aprovada, aplicável àquela referência e variante. Não basta haver um documento na pasta. O documento tem de dizer o que o texto afirma.
Convém separar a liberdade de escrita da liberdade de alterar factos. A IA pode organizar a informação, encurtar frases e eliminar repetições. Não pode decidir que o material é reciclado, que existe uma certificação ou que a entrega demora dois dias. Uma frase com bom ritmo não substitui a confirmação dessas condições.
O ensaio: cinco referências e uma hora delimitada
Reserva uma hora para preparar e rever uma pequena amostra. É uma estimativa de esforço para o ensaio, não uma garantia de obter cinco descrições aprovadas nesse tempo. Se os documentos estiverem incompletos, a conclusão útil pode ser precisamente essa.
Escolhe produtos conhecidos pela pessoa que vai rever. Para cada um, reúne a referência exata, a variante, uma ficha aprovada e a respetiva versão ou data. Identifica também os elementos que a descrição deve obrigatoriamente incluir. Se duas fontes discordarem, não peças à IA para escolher a que lhe parece melhor: resolve a divergência antes de usar o resultado.
Não precisas de dar acesso ao ERP. Uma cópia autorizada dos campos relevantes chega para este primeiro exercício. Exclui preços de compra, margens, contactos e outros dados que não sejam necessários. Usa uma ferramenta aprovada pela empresa e confirma as condições de tratamento e conservação da informação antes de carregar documentos.
Pede duas saídas separadas: o rascunho destinado ao catálogo e um registo interno que associe cada característica à passagem da fonte que a sustenta. As dúvidas ficam nesse registo, não escondidas em linguagem vaga dentro da descrição.
Uma instrução inicial pode ser esta:
Escreve uma descrição curta em português de Portugal para esta referência e variante, usando apenas as fontes aprovadas fornecidas. Podes melhorar a organização e a clareza, mas não acrescentar propriedades, certificações, compatibilidades, garantias ou condições comerciais. Entrega o rascunho e, separadamente, uma lista de características com a respetiva fonte e passagem de apoio. Assinala como «por confirmar» qualquer informação necessária que esteja ausente ou contraditória. Não publiques nem alteres o catálogo.
Esta instrução orienta o trabalho. Não é uma garantia técnica de correção. A revisão continua a fazer parte do processo.
Exemplo completo: uma tampa não prova um fecho hermético
Considera este exemplo inteiramente fictício. A fonte aprovada de um produto contém apenas:
| Campo | Informação confirmada |
| — | — |
| Referência | CX12 |
| Produto | Caixa de arrumação |
| Capacidade nominal | 12 litros |
| Material | Polipropileno |
| Cor do corpo | Cinzento |
| Tampa | Tampa de encaixe azul incluída |
| Dimensões exteriores | 400 × 300 × 160 mm |
Um rascunho problemático seria:
Caixa hermética de 12 litros, fabricada em plástico reciclado e adequada ao contacto alimentar. Empilhável e resistente a impactos, protege os teus produtos da humidade.
Quase todas as promessas relevantes foram acrescentadas. A capacidade está confirmada. O material reciclado, a aptidão alimentar, o empilhamento, a resistência a impactos e a proteção contra humidade não estão. A existência de uma tampa não comprova estanquidade. O nome do material, por si só, também não comprova a aptidão do produto acabado para contacto alimentar.
Um rascunho aceitável, sujeito a revisão, seria:
Caixa de arrumação CX12 em polipropileno, com capacidade nominal de 12 litros. Corpo cinzento e tampa de encaixe azul incluída. Dimensões exteriores: 400 × 300 × 160 mm.
É menos exuberante. Mas permite ao comprador perceber o que está a comprar, sem criar expectativas que a documentação não sustenta.
No registo interno, «capacidade nominal de 12 litros» remete para o campo da capacidade; «tampa incluída» remete para o campo da tampa. A aptidão alimentar fica por confirmar. Não passa para «não adequada para alimentos»: a ausência de prova não autoriza a conclusão contrária.
A revisão também deve detetar omissões. Se o texto retirar a palavra «exteriores» das dimensões, o comprador pode interpretá-las como espaço útil. Não houve invenção de um número, mas perdeu-se uma distinção importante. O mesmo vale para avisos de utilização ou acessórios vendidos separadamente: resumir não pode apagar condições necessárias à escolha.

Uma fotografia ajuda a confirmar a identidade visual, mas não demonstra propriedades invisíveis. Ver uma tampa numa imagem não comprova que seja hermética. A pessoa do armazém pode confirmar que aquela é a variante certa; a aprovação de uma característica técnica exige a documentação correspondente.
Mede o texto aprovado, não a velocidade de geração
Uma demonstração que produz dez descrições em poucos segundos mostra capacidade de gerar texto. Não mostra quanto custa verificar esse texto nem se o catálogo ficou utilizável. É essa a diferença que o teu ensaio deve tornar visível.
Regista o tempo de preparação das fontes, de geração, de conferência e de correção até à aprovação. Conta também as descrições aprovadas, as que ficaram bloqueadas por falta de informação e as correções necessárias. Distingue ajustes de estilo de erros factuais. Trocar uma frase comprida por duas curtas não tem o mesmo significado que retirar uma certificação inexistente.
Imagina, apenas para ilustrar a conta, que preparar cinco descrições pelo processo habitual demora 70 minutos. Com IA, preparar as fontes demora 15, gerar os rascunhos demora cinco e rever e corrigir demora 35. O total é 55 minutos: a diferença é de 15 minutos, não dos 65 que resultariam de contar apenas a geração. Estes valores não são resultados da Leiritech nem uma previsão para a tua empresa.
Se só três descrições ficaram aprovadas, regista três. Não compares cinco textos prontos no processo habitual com cinco rascunhos ainda incompletos no processo assistido. E não transformes automaticamente minutos disponíveis em euros poupados: isso depende do uso que a equipa consegue dar ao tempo.
Antes de começar, define a condição de aceitação: nenhuma característica sem suporte, nenhum elemento obrigatório omitido e aprovação humana antes da utilização. Se aparecer uma alegação técnica sem fonte, a ficha fica bloqueada até ser corrigida e novamente revista. Um resultado rápido que falha estas condições não passou no ensaio.

«Se tenho de conferir tudo, mais vale escrever eu»
Pode ser verdade. Se os textos forem muito curtos, as fontes estiverem desorganizadas ou cada produto exigir uma investigação, a IA pode acrescentar trabalho. Não há obrigação de a usar só porque está disponível.
O possível ganho está em retirar o esforço da primeira redação e manter a verificação numa estrutura previsível. Um revisor recebe sempre o mesmo formato, encontra a origem de cada característica e concentra-se nas diferenças. Mas, se tiver de procurar todas as fontes novamente, o processo foi mal desenhado. E se a saída for apenas a junção de campos fixos, um modelo de texto convencional pode chegar, com menos complexidade.
Cada pessoa deve rever aquilo que conhece. O comercial avalia clareza e adequação da linguagem, sem acrescentar promessas para tornar o texto mais apelativo. O armazém confirma a referência e a variante. O responsável técnico valida alegações que exigem documentação específica. O gestor decide se o tempo total e a qualidade justificam repetir o método. Não é preciso juntar todos em cada ficha; é preciso saber a quem encaminhar uma dúvida.
Só depois faz sentido ligar aos dados da empresa
Se o ensaio funcionar repetidamente, podes estudar a leitura das fichas e dos campos aprovados diretamente dos teus sistemas. Num PHC, Sage, Primavera ou ARTSOFT, o ponto de partida é confirmar a versão, os acessos disponíveis, os campos usados pela empresa e onde vivem os documentos. Não se deve presumir que uma característica escrita numa observação livre esteja atualizada ou aprovada para publicação.
Uma ligação só de leitura impede que esse acesso altere o ERP; não impede, por si só, que um texto esteja errado. O registo de consultas e fontes ajuda a perceber o que aconteceu; não transforma uma inferência numa característica comprovada. É preciso manter as fontes delimitadas, as permissões, a identificação da versão consultada e a revisão do resultado.
O acesso pode incluir uma pergunta pelo WhatsApp, como «qual é a ficha aprovada desta referência?», quando esse canal fizer sentido e estiver configurado. Mas o canal não resolve a qualidade dos dados. Também não é necessário para testar as primeiras cinco descrições. O prazo de uma integração depende dos acessos, da configuração e dos documentos existentes, não de uma promessa genérica de arranque em horas.
Na Leiritech, esse é o princípio: trabalhar sobre os teus dados, com leitura controlada e auditada, sem confundir um rascunho com informação aprovada. O primeiro resultado útil pode ser uma descrição pronta. Pode também ser descobrir que falta uma ficha atualizada antes de prometer uma propriedade ao cliente.
Para começar, fala com a Leiritech em leiritech.pt sobre cinco referências concretas. Primeiro confirma se o método reduz trabalho sem inventar características. O resto do catálogo pode esperar por essa prova.
