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Retalho & IA

Não há nesta loja, há noutra: stock entre lojas no WhatsApp

"Na loja do Porto disseram-me que não havia em 39. Vocês têm noutro lado?"

Esta mensagem chega-te ao WhatsApp numa sexta à noite, ou ao balcão num sábado à tarde com fila. Na maior parte das lojas com mais de um ponto de venda, a resposta honesta é "deixe-me ligar". O vendedor liga para Braga. Em Braga estão a atender e ninguém pega no telefone. Liga outra vez. Entretanto o cliente abriu o site de outra marca, que lhe diz em três segundos se há ou não há.

O artigo existia. Estava a 50 km, numa prateleira tua, registado no teu ERP. Não perdeste a venda por falta de stock. Perdeste-a porque essa informação só se consulta ao balcão de cada loja, por quem lá estiver e tiver tempo.

Este artigo explica como pôr o stock de todas as tuas lojas a responder no WhatsApp a partir do ERP que já tens, e como transformar o "não há aqui" numa reserva para levantar onde o cliente quiser. E explica porque é que, nesse processo, a IA não deve mexer no teu stock.

Vendedora de uma sapataria, vista por trás do ombro, a ler no telemóvel uma conversa de WhatsApp de um cliente, com prateleiras de caixas de sapatos ao fundo

O retalho quer isto, e ninguém lho está a vender

A vontade existe. No estudo da Adyen publicado em junho, 81% dos retalhistas em Portugal dizem aceitar compras concluídas inteiramente por IA, e 39% põem a IA como prioridade estratégica para os próximos 12 meses. Na prática, o INE contava no ano passado 11,5% de empresas a usar IA, e só 9,4% entre as pequenas. A Resolução do Conselho de Ministros 2/2026 aponta 5,8% no comércio. Há muita intenção e pouco uso.

Também não é por falta de produto que se usa pouco: o produto foi feito para outro setor. Em maio, a Inmovilla, do idealista, lançou em Portugal um assistente de IA dentro do WhatsApp para os agentes operarem o CRM, e em julho juntou-lhe um qualificador de leads. Há ainda a ImoAgent e meia dúzia de equivalentes brasileiros. Hoje um agente imobiliário pergunta ao CRM pelo WhatsApp, e o lojista ainda pega no telefone fixo para saber se a outra loja tem o 39.

O que existe para o retalho olha para dentro de uma plataforma. O bot de WhatsApp da Shopkit, lançado em setembro, cobra 0,03 € + IVA por resposta e lê o catálogo, o stock e as encomendas da própria Shopkit. Quando o orçamento diário acaba, deixa de responder. Para uma loja que vende só online nessa plataforma pode chegar. Mas a loja de rua com o POS num software, o armazém no PHC e três lojas físicas ligadas ao mesmo ERP fica de fora, porque esse bot não vê as prateleiras dela. E nos softwares de faturação mais usados cá (Moloni, Vendus, Primavera, PHC) não encontrámos nenhum a anunciar integração nativa com WhatsApp este ano.

O setor sabe o que lhe falta. Em setembro, a Grande Consumo resumiu as prioridades do retalho até ao fim de 2026: comércio unificado, com inventário, encomendas e clientes numa só visão, stock em tempo real, e IA em processos reais em vez de pilotos. A pergunta "há noutra loja?" junta as três coisas num processo que acontece todos os dias.

Porque é que o stock entre lojas é o caso certo para começar

É uma pergunta fechada com resposta factual. "Há o artigo X na variante Y em que loja?" tem uma resposta, e essa resposta está no ERP. Não pede opinião nem criatividade. Se a IA estiver bem construída, não tem por onde inventar: ou a consulta devolve o dado ou não devolve.

É dinheiro que já é teu. O artigo já foi comprado, pago e arrumado na prateleira. Não estás a criar procura com marketing. A procura já chegou e está a ir-se embora.

O calendário aperta. O Dia das Compras na NET é a 23 de outubro e a Black Friday a 27 de novembro, daqui a seis semanas. Segundo um inquérito da Google com mais de 25 mil entrevistas, 44% dos consumidores em Portugal tencionam comprar na Black Friday ou na Cyber Monday. Depois vem o Natal. Na época alta, a variante certa esgota numa loja e sobra noutra, e é aí que o telefone deixa de chegar.

Tira a transportadora da equação. O Portal da Queixa registou no primeiro semestre de 2026 uma subida de 98% nas queixas sobre entregas, e a taxa de resolução caiu de 45% para 34%. Quando o cliente levanta numa loja tua, quem responde pela entrega és tu e não um terceiro.

Passo a passo: do "não há" à reserva confirmada

Um exemplo ilustrativo, com números inventados para a explicação e não tirados de nenhum cliente. Uma cadeia de calçado tem três lojas (Leiria, Porto e Braga) e um armazém, todas no mesmo ERP com stock por armazém.

1. Sexta, 22h10. O cliente escreve: "Têm as sapatilhas brancas deste modelo em 39? No Porto não havia." Na primeira mensagem o assistente diz que é um assistente automático. É isso que o AI Act exige, e é o mínimo que a DECO pede depois de ter dado notas entre "Mau" e "Razoável" ao atendimento digital de 24 empresas.

2. Identifica o artigo certo. Se o modelo tem "branco" e "branco/cinza", o assistente pergunta qual é. Não adivinha a cor nem o tamanho. No mesmo estudo da Adyen, 40,3% dos consumidores dizem ter medo de receber o tamanho, a cor ou o artigo errados. Uma pergunta a mais custa-te dez segundos. Uma troca custa-te muito mais.

3. Lê o ERP, só em leitura. Consulta o stock disponível por loja para aquele SKU e variante, e não o stock físico. A diferença conta. Braga tem dois pares na prateleira, mas um já está reservado para outro cliente, por isso o disponível é um. Leiria tem um. O armazém está a zero e há uma encomenda ao fornecedor. O assistente só fala nessa encomenda se a data prevista estiver registada no ERP. Se não estiver, não promete data.

4. Responde com o que leu. "Em 39 branco há 1 em Braga e 1 em Leiria. No Porto não há. O preço é 89,90 €. Queres que a equipa te guarde um? Podes levantar em Braga, em Leiria, ou pedimos para seguir para o Porto." O preço é o que está no ERP naquele minuto, e não o do catálogo da semana passada.

5. Fecha com um resumo. O cliente responde: "Levanto no Porto, no sábado da próxima semana." O assistente devolve um resumo com artigo, variante, tamanho, preço, loja de origem, loja de levantamento e prazo. O cliente diz "sim", e esse "sim" fica registado junto do resumo.

6. Cria um pedido no CRM sem mexer no stock. Aqui está a linha que traçamos de propósito: o assistente não reserva nada no ERP. Cria um pedido de reserva no CRM, ligado à ficha do cliente (ou cria a ficha, se for cliente novo), com a conversa anexada. Às 9h de sábado, o responsável de Braga recebe a tarefa, vai à prateleira e confirma que a caixa lá está. Depois reserva no ERP e prepara a transferência.

Funcionário no armazém de uma sapataria a segurar uma caixa aberta com sapatilhas brancas enquanto confirma a tarefa de reserva num terminal portátil

7. Confirma ao cliente só depois de alguém ver a caixa. A mensagem "está guardado, chega ao Porto na quinta" só sai depois da confirmação humana. Se a caixa afinal não estiver lá, o cliente fica a saber às 9h15 de sábado, e não no sábado seguinte ao balcão.

8. O levantamento e a fatura seguem o processo normal. A venda é faturada no POS da loja que entrega, como outra venda qualquer. O CRM liga conversa, pedido, reserva e fatura. Ao fim do mês sabes quantas vendas vieram do "há noutra loja", em vez de teres uma sensação.

Cada passo deixa um registo de auditoria: o que foi perguntado, que consulta correu, que dados foram lidos, o que foi respondido, quem confirmou e a que horas. Se um cliente disser "disseram-me que havia", tens a conversa e a consulta para mostrar.

"Porque não deixas a IA reservar logo?"

Podíamos. Tecnicamente é uma escrita no ERP, e não é difícil. Mas a reserva compromete uma unidade física, e o stock do ERP e o da prateleira nem sempre batem certo: a caixa trocada, o par que está na montra, o 39 experimentado e esquecido no provador. Uma reserva automática feita sobre stock errado é uma promessa falsa com o nome da tua loja.

Há ainda a pergunta da responsabilidade. No estudo da Adyen, 38% dos consumidores querem saber quem responde se o artigo vier errado. Com confirmação humana a resposta é simples: uma pessoa da tua equipa viu a caixa e confirmou. O custo é umas horas de espera quando o pedido chega fora do horário. Em troca, não fazes promessas que não consegues cumprir.

Se o teu stock for fiável ao nível da unidade, porque tens RFID ou inventários frequentes, podemos discutir uma escrita estreita: só reserva, só aquele SKU, com prazo de expiração e auditada. Mas não é por aí que se começa.

"O meu stock no ERP não bate certo." Então o problema já existe hoje, porque o vendedor ao telefone consulta o mesmo ERP. A diferença é que cada pedido confirmado ou recusado pela loja passa a ficar registado. Ao fim de um mês sabes em que loja e em que família de artigos não podes confiar no número.

"As lojas competem entre si." Braga não quer largar o par para o Porto faturar. Isto é uma regra de negócio e não uma questão de tecnologia: decide antes a quem conta a venda (à loja que tinha o artigo, à que entrega, ou às duas em partes). O CRM regista a origem e a entrega e aplica a regra sempre da mesma maneira. Sem regra, o pedido fica parado na loja que tem a caixa.

O que não podes ignorar

RGPD. O pedido de reserva parte do cliente, por isso tratas os dados dele para fazer o que ele pediu. A confirmação, o aviso de "chegou" e o lembrete do prazo são mensagens de serviço sobre essa reserva. Usar depois o número para mandar promoções já é marketing e precisa de consentimento próprio, que não vem incluído no "guardem-me um 39". Separa as duas coisas no CRM desde o primeiro dia e define quanto tempo guardas os pedidos que não deram venda.

Custo das mensagens. Segundo vários fornecedores da API, desde 1 de outubro as mensagens de serviço e de utilidade dentro da janela de 24 horas passaram a ser pagas. A confirmação das 9h ainda cai na janela de uma conversa que começou às 22h. O lembrete da semana seguinte já não cai: é um modelo de utilidade e tem custo. Faz a conta antes da Black Week.

AT. Uma transferência entre lojas é circulação de bens, por isso leva documento de transporte emitido em software certificado e, em regra, comunicado à AT antes de a mercadoria sair. Há dispensas para volumes de negócio pequenos, e o teu contabilista confirma em que caso estás. A fatura é emitida no programa certificado da loja que entrega. O assistente não emite faturas. Se pedires um sinal para guardar o artigo, esse pagamento tem tratamento fiscal próprio e não é "um MB Way e depois logo se vê".

Como se monta, sem trocar de ERP

Não precisas de trocar de ERP. Precisas de quatro peças:

  • Um acesso só de leitura ao ERP que já tens (PHC, Primavera ou outro com base de dados ou API acessível), limitado ao stock por armazém, aos preços e às fichas de artigo.
  • Um assistente que só responde com o que essas consultas devolvem. Se a consulta não trouxer o dado, a resposta é "não tenho essa informação, passo à equipa", e não um palpite.
  • Um CRM onde ficam os pedidos, as conversas e os consentimentos.
  • A API oficial do WhatsApp Business e um registo de auditoria de cada consulta.

No primeiro mês mede quatro números: quantos "não há aqui" passaram a pedido, quantos pedidos a loja confirmou, quantos foram levantados e quanto tempo passou entre o pedido e a confirmação. Ficas a saber quanto valia a venda que hoje se perde ao telefone.

Se tens mais de uma loja e a tua equipa ainda liga às outras para saber se há, escreve para hello@leiritech.com ou passa por leiritech.pt. Somos uma equipa pequena em Leiria e falas diretamente com quem escreve o código.

Escrito por

Equipa Leiritech

A equipa Leiritech — a construir software com inteligência artificial a partir de Leiria, Portugal.

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