"Em março encomendaram 4 000 unidades da referência 2117. Com base em quê?"
A pergunta vem do auditor, ou do teu sócio, ou do banco. E tu sabes a resposta: o responsável de armazém perguntou ao assistente que referências estavam abaixo do stock mínimo no armazém 2, o assistente disse que eram sete, a 2117 era uma delas, e a encomenda seguiu. Fazia todo o sentido na altura.
Só que hoje, quando fazes a mesma pergunta para o mês de março, o assistente responde três. Não sete. A 2117 nem aparece.
Agora tens um problema. Ou o assistente se enganou em março, ou se engana hoje, ou o armazém encomendou sem razão. E não tens forma de provar qual das três é verdade.
É disto que este artigo trata: um assistente sobre o ERP não chega que responda bem. Tem de conseguir mostrar, meses depois, o que respondeu, com que dados e porquê.

Porque é que a mesma pergunta dá outra resposta?
Porque o ERP não é uma fotografia. É um livro que continua a ser escrito, também nas páginas de trás.
Pensa no que acontece numa PME normal entre março e outubro:
- Uma regularização de inventário feita em junho, lançada com data de 31 de março porque é aí que pertence.
- Uma nota de crédito emitida em abril que anula parte de uma fatura de fevereiro.
- Um mínimo de stock que alguém alterou na ficha do artigo em maio.
- Um cliente que mudou de zona comercial, e de repente as vendas "da zona Centro" no primeiro trimestre já não somam o mesmo.
Nada disto é erro. É contabilidade e gestão a funcionar. Mas significa que "os dados de março" vistos em outubro não são os dados de março vistos em março. Quem decidiu, decidiu com o que via naquele dia.
O ERP regista muito bem o que mudou nele: quem alterou a ficha, quando foi lançado o documento. O que o ERP não regista é o que foi dito a alguém. E quando a resposta passa a vir de um assistente, essa é exatamente a parte que precisas de guardar.
O ChatGPT público consegue fazer isto?
Não, e não é por má vontade. Numa ferramenta genérica, colas um Excel, fazes uma pergunta, recebes um texto. Três meses depois tens, com sorte, o histórico da conversa. Não tens o ficheiro tal como estava, não sabes que versão da folha foi colada, e a conta foi feita pelo próprio modelo, que pode ter somado mal sem avisar.
Há ainda um problema mais fundo: quando o modelo escreve ele próprio a consulta à base de dados a partir da pergunta, a mesma pergunta pode gerar consultas diferentes em dias diferentes. Em testes públicos como o BIRD, este tipo de geração automática acerta à volta de 75% das vezes. E o pior é que, quando falha, a consulta corre na mesma e devolve números errados sem dar qualquer erro. Se não sabes que consulta correu, não há forma de refazer a resposta. Nem sequer de saber se estava certa.
E fica a pergunta de sempre num ChatGPT privado para empresas: onde estiveram esses dados? Se o Excel com a faturação por cliente foi para um servidor fora da UE, isso é um assunto de RGPD por si só, antes de chegarmos à auditoria.
O que tem de ficar guardado para conseguires refazer a resposta?
A regra é simples: os números vêm de uma consulta, não do modelo. O modelo percebe a pergunta em português e escreve a resposta. Quem vai ao ERP buscar os números é uma consulta aprovada, escrita e testada por pessoas, com nome e versão.
A partir daí, cada resposta gera um registo com seis coisas:
- Quem perguntou e com que perfil. O responsável de armazém vê stock e encomendas; não vê margens por cliente. O perfil faz parte do registo.
- A pergunta, tal como foi escrita. "Que refs tão abaixo do mínimo no arm 2?", com gralhas e tudo.
- A consulta usada e a versão dela. Por exemplo,
stock_abaixo_minimov3. Se em julho alguém mudar a forma de calcular o stock disponível (passar a descontar reservas, por exemplo), isso é a v4, e a resposta de março continua ligada à v3. - Os parâmetros. Armazém 2, data de referência 14/03, mínimos da ficha do artigo.
- O ponto de leitura dos dados. Até que movimento, ou até que momento, o ERP foi lido. É isto que separa os dados de março vistos em março dos dados de março vistos hoje.
- O resultado devolvido e o texto enviado. As linhas que vieram do ERP (normalmente umas dezenas, não milhares) e a frase exata que a pessoa recebeu, com uma impressão digital (hash) para provar que nada foi alterado depois.
Com estes seis pontos, a conversa com o auditor muda. Abres o registo de 14 de março e mostras: esta pergunta, este perfil, esta consulta, estes sete artigos, esta resposta. Depois corres a mesma consulta, na mesma versão, sobre os dados de hoje, e vês a diferença lado a lado: quatro artigos saíram da lista por causa da regularização de inventário lançada a 2 de junho com data de março.
O armazém não se enganou e o assistente também não. O stock é que mudou depois. E agora consegues prová-lo em dez minutos, em vez de passares uma tarde a reconstruir Excels.

Como fica isto no dia a dia, no WhatsApp?
Para quem pergunta, nada disto se vê. A conversa é normal. Os números abaixo são ilustrativos:
Tu: Que referências estão abaixo do mínimo no armazém 2?
Assistente: 7 referências abaixo do mínimo no armazém 2, lido às 10:42. A maior falta é na 2117: 380 un. em stock, mínimo 1 200. Lista completa no anexo. (consulta: stock abaixo do mínimo, v3)
Tu: Quanto faturámos à Metalúrgica Silva no 1.º trimestre?
Assistente: 48 230 € sem IVA, em 23 faturas, já descontadas 2 notas de crédito (1 140 €). Por receber: 9 870 €, das quais 3 200 € vencidas há mais de 30 dias.
Tu: E o que te perguntei sobre o stock a 14 de março?
Assistente: A 14/03 às 10:42 respondi 7 referências. Com os dados de hoje, a mesma consulta dá 3. A diferença vem da regularização de inventário n.º 112, lançada a 02/06 com data de 31/03.
Tu: Quantas ordens de fabrico fecharam ontem na linha 1?
Assistente: 14 ordens fechadas, 2 com desvio de tempo acima de 15%. Não tenho acesso aos custos por ordem com o teu perfil.
Repara na última frase. Quando o perfil não chega, o assistente diz isso mesmo. Não inventa um número para te agradar.

Guardar tudo isto não choca com o RGPD?
É a objeção certa, e a resposta depende de como está desenhado.
Primeiro, guardas o que já foi mostrado, não mais. O resultado já passou pelo filtro de perfil, por isso o registo não contém nada que a pessoa não tenha visto. Segundo, o registo fica alojado na UE, no mesmo sítio que o resto do sistema, e tem acesso restrito por perfil (RBAC): o responsável de armazém vê as suas perguntas, a direção e a qualidade veem as do seu âmbito. Terceiro, há um prazo de conservação definido por ti, alinhado com o que já guardas para efeitos de auditoria e fiscais, e não "para sempre por defeito".
Se a pergunta envolver dados pessoais de clientes, aplica-se o mesmo raciocínio do resto do ERP: base legal, minimização e prazo. O registo de auditoria não é um extra que se cola no fim. Faz parte da arquitetura desde o primeiro dia.
"Mas o modelo não responde sempre igual"
Pois não. E não precisa.
A frase pode sair um pouco diferente de cada vez. Os números, não, porque não são gerados pelo modelo. O que reproduzes é a consulta, os parâmetros e os dados. O texto enviado na altura fica guardado tal como foi. É por isso que a arquitetura pode ser agnóstica ao modelo: pode usar um modelo nacional, como o AMALIA, pensado para o português europeu, ou outro modelo alojado na UE, conforme o caso. Trocar de modelo daqui a um ano não apaga a capacidade de refazer as respostas de março, porque essa capacidade nunca dependeu do modelo.
O que isto não faz?
Convém ser claro:
- Não escreve no ERP. O acesso é só de leitura. Não lança documentos, não corrige stocks, não altera fichas.
- Não decide por ti. Mostra os sete artigos. Encomendar continua a ser uma decisão de uma pessoa, e o registo mostra isso mesmo.
- Não reconstrói o passado se o ERP o apagou. Se o teu ERP sobrescreve valores sem guardar histórico (há campos assim em muitos sistemas), a única forma de ter "os dados de março vistos em março" é o próprio registo da resposta. Por isso guardamos o resultado e não só a consulta.
- Precisa de dados minimamente arrumados e de uma decisão tua sobre quem vê o quê. Sem perfis definidos, não há auditoria que se aproveite.
Por onde começas?
Por pouco. Um departamento (armazém, faturação ou produção) e 10 a 20 perguntas que hoje obrigam a exportar para Excel ou a pedir a alguém. Para cada uma, uma consulta aprovada e versionada sobre o ERP que já tens, sem migrar nada.
Ao fim de um mês medes duas coisas: as horas poupadas em pedidos de relatórios e um teste simples de auditoria. Escolhes cinco respostas ao acaso das primeiras semanas e tentas refazê-las. Se conseguires mostrar em minutos o que foi respondido, com que dados e porque é que hoje dá diferente, o piloto passou. Se não conseguires, ainda não tens um assistente em que possas confiar para decidir.
Somos uma equipa pequena em Leiria. Quem desenha a consulta e o registo de auditoria é quem fala contigo, sem gestores de conta pelo meio.
Queres perguntar ao teu ERP em português, sem os dados saírem da UE? Fala connosco: hello@leiritech.com · +351 914 572 595, ou vê o nosso trabalho em leiritech.pt.
