Todos os artigos
Rastreabilidade

Lotes de pescado: manter a origem após fusão e divisão

Juntaste dois lotes de peixe. Depois dividiste o resultado por várias encomendas. Agora precisas de responder a uma pergunta simples: de onde veio o pescado desta caixa?

O código do lote está no ERP. As entradas e as saídas também. Mas, entre a receção e a expedição, houve uma fusão, uma divisão e talvez uma transferência de armazém. Se esses movimentos não estiverem ligados, conhecer o stock não chega para reconstruir a origem.

Num entreposto dos Açores ou da Madeira, o problema não se resolve com uma resposta convincente de um chatbot. Resolve-se preservando as relações entre lotes, quantidades e documentos. Uma camada de IA pode tornar essa informação consultável em linguagem corrente, desde que seja só de leitura, auditada e fundada nos teus dados. Não pode inventar a relação que falta.

Operador de receção consulta um tablet junto de dois grupos separados de caixas de pescado com gelo

Um código novo não apaga os lotes anteriores

Uma fusão cria uma nova identidade operacional. Não elimina a história dos produtos que entraram nela. Uma divisão cria novas frações. Não transforma cada fração numa nova origem.

A DGRM explicita esta distinção na secção 15 de «Rastreabilidade — Dúvidas comuns», versão V01.C, de 25 de março de 2026. Para os produtos abrangidos pelo capítulo 3 da Nomenclatura Combinada, após a colocação no mercado, a fusão ou divisão está condicionada à disponibilização das informações de rastreabilidade dos novos lotes e à conservação da informação dos lotes que os constituem. O documento remete para o artigo 56.º-A, n.º 5, e para o artigo 58.º, n.º 5, do Regulamento 1224/2009.

Isto não significa que qualquer mistura seja admissível, nem que um programa possa declarar conformidade sozinho. Significa que guardar apenas o código final deixa de fora uma parte essencial da história. O âmbito e as condições aplicáveis ao teu produto têm de ser confirmados pelo responsável técnico.

Há ainda uma distinção importante: saber quem forneceu o pescado não equivale a conhecer todos os elementos da sua origem. Datas de captura, identificação da viagem e restantes elementos aplicáveis têm de continuar acessíveis nos registos de origem. O fornecedor é uma ligação nessa cadeia, não um substituto da cadeia inteira.

O exemplo dos 200 kg: as contas certas podem esconder uma lacuna

Considera este exemplo hipotético, simplificado para explicar o problema. Não corresponde a um cliente nem demonstra um resultado da Leiritech. Assume pescado da mesma espécie e uma operação de fusão admissível, sem transformação nem perdas nesta sequência.

Recebes 120 kg do lote A e 80 kg do lote B. O armazém junta-os no lote M, com 200 kg. Mais tarde, divide M em três frações: C, com 90 kg; D, com 70 kg; e E, com 40 kg.

| Operação | Entradas registadas | Resultado registado |
|—|—|—|
| Fusão | A: 120 kg; B: 80 kg | M: 200 kg |
| Divisão | M: 200 kg | C: 90 kg; D: 70 kg; E: 40 kg |

O balanço fecha: 120 + 80 = 90 + 70 + 40. Sabes que M recebeu pescado de A e B. Sabes também que C, D e E resultaram de M, se essas ligações estiverem efetivamente registadas.

Mas quantos quilos de A existem em C?

Não podes concluir que são 54 kg apenas porque A representava 60% de M. Essa conta distribui proporcionalmente a composição do lote agregado. Não prova como o pescado foi separado fisicamente. Numa operação com caixas ou exemplares inteiros, a divisão pode ter seguido outra distribuição.

Se o registo operacional documentar que C recebeu 60 kg de A e 30 kg de B, essa composição pode ser apresentada com a respetiva fonte. D poderia ter recebido 40 kg de A e 30 kg de B, ficando E com 20 kg de cada origem. Também aqui o balanço fecha, mas a composição de C é diferente da estimativa proporcional.

A mesma soma final admite distribuições diferentes. Por isso, o sistema deve distinguir a ascendência do lote — C resulta de M, que recebeu A e B — da composição quantitativa efetivamente documentada de C. Se só tiver a primeira, deve dizê-lo. Não deve afirmar que cada caixa contém ambas as origens, nem atribuir percentagens por conveniência.

Operadoras dividem pescado por caixas de saída e registam a operação num terminal fixo do entreposto

O que o ERP tem de guardar para a resposta ser verificável

O ponto de partida não é o modelo de linguagem. É o registo da operação que liga as entradas às saídas.

Para reconstruir esta sequência, precisas de identificar o movimento de fusão, os lotes de entrada, as quantidades utilizadas e o lote resultante. Na divisão, precisas da ligação entre o lote dividido e cada fração criada. Data, documento de suporte, unidade de medida e utilizador responsável permitem verificar o que aconteceu. Quando existe composição detalhada por origem, essa informação deve ficar ligada à operação que a documenta.

O identificador também precisa de contexto. Dois fornecedores podem usar o mesmo código de lote. Se o sistema juntar tudo o que se chama «123», pode fabricar uma relação entre produtos que nunca estiveram juntos. A identidade interna tem de distinguir os registos de forma inequívoca, preservando a referência original do fornecedor.

Depois há o peso. Quilogramas líquidos de pescado não são o mesmo que peso bruto da caixa com gelo. Uma verificação de quantidades precisa de comparar grandezas equivalentes. Se houver perdas, correções ou transformação, devem existir movimentos próprios, com motivo e suporte. Um desvio não desaparece porque ficou dentro de uma tolerância escolhida pelo programador.

Também não podes contar o mesmo produto duas vezes. Depois de A e B serem integralmente consumidos na criação de M, o histórico continua disponível, mas os 200 kg não ficam simultaneamente disponíveis nos três lotes. A mesma regra vale quando M é totalmente dividido. Histórico de origem e saldo atual são perguntas diferentes.

Onde entra a IA — e onde não entra

Uma integração deste tipo pode deixar-te perguntar: «Que lotes deram origem a C e onde estão os documentos?» O sistema percorre os movimentos autorizados, calcula os balanços com regras determinísticas e devolve as referências que sustentam a resposta. A IA organiza a explicação; não decide as somas nem inventa movimentos.

No exemplo sem composição detalhada, uma resposta útil seria:

C tem 90 kg e resulta da divisão de M. M foi formado com 120 kg de A e 80 kg de B. Os registos consultados não discriminam a quantidade de cada origem presente em C.

A resposta real deve acrescentar os identificadores dos movimentos e documentos consultados, bem como a data de atualização dos dados. Se a integração só recebeu movimentos até ao fecho de ontem, não pode apresentar o resultado como uma posição atualizada deste minuto.

«Só de leitura» tem de ser uma propriedade das permissões técnicas, não uma frase nas instruções do assistente. A ligação ao ERP deve impedir alterações e limitar o acesso às empresas, armazéns e dados autorizados para aquele utilizador. As consultas devem ser controladas, sem permitir que o modelo execute comandos arbitrários sobre a base de dados.

«Auditada» significa conseguir verificar quem perguntou, que consulta foi executada, que registos foram utilizados e que resposta foi apresentada. O registo de auditoria pertence a uma camada própria; não exige dar à IA autorização para escrever no ERP.

É isto que distingue uma resposta fundada nos teus dados de uma resposta apenas plausível. Se faltar a ligação entre M e C, o assistente não deve reconstruí-la pela proximidade das datas ou pela semelhança dos pesos. Pode indicar registos a rever, claramente separados das relações confirmadas. A correção continua a ser feita por uma pessoa autorizada, no sistema de origem, com histórico.

Responsável de operações e colega revêm movimentos de lotes e uma resposta do assistente num monitor do escritório do entreposto

«Mas o meu ERP já gere lotes»

Ótimo. Não há razão para o substituir só para acrescentar uma caixa de conversa.

A pergunta é mais específica: o teu ERP guarda apenas o lote associado a cada linha, ou consegue representar as relações de vários lotes de entrada com vários lotes de saída? E consegues consultar essas relações sem depender da memória de quem estava no turno?

Se já tiveres uma consulta que mostra a cadeia completa e os documentos, talvez não precises de IA para esta tarefa. Pode bastar melhorar o acesso à consulta. A camada conversacional só se justifica se facilitar perguntas variáveis, cruzar fontes autorizadas ou reduzir o trabalho de localizar evidência. Esse benefício tem de ser medido, não presumido.

O discurso geral sobre IA no ERP costuma destacar inventário, previsão ou análise de gestão. Aqui, o requisito é mais estreito: explicar uma composição concreta sem confundir dados confirmados com hipóteses. Uma demonstração que responde depressa ao stock total ainda não demonstra essa capacidade.

Na Leiritech, esta seria uma integração a construir e validar sobre os teus sistemas, não um módulo de pescado que apresentamos como já instalado em clientes. Trabalhas diretamente com a equipa pequena que escreve o código. O primeiro trabalho é perceber o que o ERP regista e onde a cadeia se interrompe.

Testar antes das próximas expedições

Ao preparares as expedições do fim do ano, podes aproveitar para testar uma sequência já concluída. Não é preciso presumir um pico de procura igual em todas as ilhas, nem esperar por uma campanha comercial para descobrir que falta uma ligação.

O teste deve incluir uma fusão e uma divisão documentadas, mas também uma lacuna conhecida. Se a demonstração só usar dados perfeitos, não mostra como o sistema se comporta perante o problema que interessa resolver.

Mede o tempo necessário para reconstruir a sequência, a proporção das frações analisadas com cadeia documental completa e as ligações em falta que o sistema identificou corretamente. Define o universo da medição: dez frações verificadas não representam automaticamente todo o armazém. E confirma que a resposta recusa uma composição exata quando os dados não a suportam. Essa recusa é um resultado correto, não uma falha de inteligência.

Para quem opera nos Açores ou na Madeira, a decisão também não deve assentar numa promessa de apoio. O aviso-convite 07/C05-i14.01/2026 de IA nas PME delimitou os investimentos às regiões NUTS II do Continente. Isso não equivale à inexistência de instrumentos regionais ou à exclusão de toda a linha IA. A viabilidade desta integração tem de partir do processo e dos dados, separadamente da análise de financiamento.

Escreve para hello@leiritech.com para analisarmos uma sequência anonimizada de fusão e divisão do teu ERP. O objetivo inicial é concreto: perceber que origens consegues demonstrar hoje, quais ficam por documentar e se uma consulta só de leitura e auditada pode tornar essa verificação mais simples.

Imagens ilustrativas geradas por IA; não representam instalações de clientes nem interfaces de um produto de pescado já implementado.

Escrito por

Equipa Leiritech

A equipa Leiritech — a construir software com inteligência artificial a partir de Leiria, Portugal.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.