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Literacia em IA para PME

Lembrete de pagamento com IA: o tom certo pelo histórico

Tens catorze faturas vencidas e um único modelo de email. «Verificámos que a fatura abaixo se encontra por liquidar. Agradecemos a regularização com a maior brevidade.»

Sai igual para todos. Para o cliente que paga a horas há nove anos e se esqueceu desta vez. E para o que já recebeu três lembretes este ano e respondeu a nenhum.

O primeiro fica ofendido e liga ao teu comercial a perguntar se há algum problema. O segundo arquiva a mensagem, como arquivou as anteriores. O modelo falhou duas vezes, em sentidos opostos.

Há uma terceira saída, a mais comum: ninguém envia nada. Escrever cada lembrete à mão exige saber a história de cada cliente, e quem a sabe é precisamente quem tem menos tempo. As faturas vão envelhecendo.

Este artigo propõe um primeiro uso de IA pequeno e controlável: a IA prepara o rascunho do lembrete com o tom adequado ao historial do cliente, lido do teu ERP. Uma pessoa revê e envia. Nada sai sozinho.

Administrativa de contas a receber consulta no portátil a lista de faturas vencidas do ERP, com faturas em papel ao lado.

Estar no início é normal. Ficar parado nos testes é o risco

Se a tua empresa ainda não usa IA em nada de rotina, não estás atrasado. O INE contou utilização de IA em 11,5% das empresas abrangidas pelo inquérito de 2025. Entre as que já usam, 40,8% aplicam-na em administração ou gestão e 59,4% em análise de linguagem escrita. É exatamente o território de um lembrete de pagamento: texto, a partir de dados administrativos.

O risco é outro. O estudo internacional da SAS com a IDC, feito com mais de 1.600 líderes em 28 países, coloca cerca de 70% das PME em estágio experimental ou oportunista. Não é uma taxa portuguesa. Mas os travões que descreve são reconhecíveis em qualquer escritório: dados espalhados, pilotos isolados que morrem, falta de competências e nenhuma forma de medir o retorno.

Um bom primeiro caso responde aos quatro. Usa dados que já estão no ERP. Cabe numa tarefa que alguém já faz todas as semanas. Não exige um especialista. E o resultado vê-se em dias: lembretes enviados, ou não.

O que é, em concreto, «o histórico do cliente»

«Adequar o tom ao cliente» parece coisa de intuição. Não é. Quase tudo o que a tua administrativa experiente pesa quando escreve um lembrete está registado no ERP, seja PHC, Sage, Primavera ou Artsoft:

| Sinal | Onde costuma estar |
|—|—|
| Há quanto tempo é cliente | Ficha do cliente, primeira fatura |
| Atraso médio nos últimos 12 meses | Datas de vencimento contra datas de recebimento |
| Faturas pagas a horas, em número | Conta corrente |
| Lembretes já enviados este ano | Registo de comunicações, se existir |
| Valor total em aberto e o mais antigo | Conta corrente |
| Nota de crédito pendente ou reclamação aberta | Documentos e ocorrências |
| Acordo de pagamento registado | Observações da ficha ou da conta corrente |

Um ponto importante: estes números são calculados por consultas, não pelo modelo de linguagem. O atraso médio é uma conta, e as contas fazem-se em SQL, com resultados que podes conferir. A IA não faz «estimativas» de quantos dias o cliente costuma demorar.

Com estes sinais, a tua empresa define três ou quatro níveis de tom. É uma regra de negócio, decidida por ti, não pela máquina. Por exemplo: cordial para quem tem bom historial e um atraso pontual; claro e com data proposta para atrasos ocasionais; formal e com referência aos avisos anteriores para quem é reincidente. E um quarto estado que não é tom nenhum: não enviar, porque há algo por resolver.

Três clientes, a mesma fatura de 1.240 €

O exemplo seguinte é inteiramente fictício, incluindo nomes e valores. Serve para mostrar o raciocínio.

Três clientes de uma distribuidora têm, cada um, uma fatura de 1.240 € vencida há 18 dias.

| | Cliente A | Cliente B | Cliente C |
|—|—|—|—|
| Cliente desde | 2017 | 2022 | 2020 |
| Faturas pagas a horas (12 meses) | 23 de 24 | 9 de 20 | 15 de 16 |
| Atraso médio | 2 dias | 26 dias | 4 dias |
| Lembretes este ano | 0 | 3 | 0 |
| Situação aberta | nenhuma | nenhuma | reclamação por entrega incompleta |
| Nível | Cordial | Formal | Não enviar |

Para o cliente A, o rascunho seria algo como: «Bom dia, Sr. Marques. Pode ter-vos escapado: a fatura FT 2026/0891, de 1.240 €, venceu a 28 de setembro. Junto o documento. Se já seguiu o pagamento, peço desculpa pelo incómodo e ignore esta mensagem.»

Para o cliente B: «Exma. Sra. Dra. Ferreira, a fatura FT 2026/0893, de 1.240 €, está vencida desde 28 de setembro. É o quarto aviso que enviamos este ano por faturas em atraso. Pedimos que nos indique, até 24 de outubro, a data de pagamento prevista.»

Para o cliente C, não há rascunho. Há um alerta: «Existe uma reclamação aberta sobre a guia associada a esta fatura. Confirmar com o armazém antes de cobrar.» Mandar um lembrete a quem está à espera de mercadoria em falta é pedir uma discussão.

Repara no que os rascunhos fazem e não fazem. Citam o número do documento, o valor e a data, que vêm do ERP. O «quarto aviso» do cliente B vem do registo de comunicações, não da imaginação. Não ameaçam com advogados nem falam de juros. Essas são decisões da empresa. Se as quiseres no texto, ficam escritas na regra do nível, e a IA limita-se a aplicá-las.

Dono da empresa e administrativa revêem juntos um rascunho de lembrete impresso, assinalando uma frase antes do envio.

Porque é que não basta pedir isto ao ChatGPT

Experimenta pedir a um assistente genérico: «Escreve um lembrete firme para um cliente que paga sempre tarde.» Vais receber um texto bem escrito. Pode até incluir uma frase como «conforme os nossos registos, esta é a terceira vez que…».

Que registos? O modelo não os tem. Escreveu o que soa plausível. É a isto que se chama alucinar: preencher um vazio com texto convincente. Num lembrete de cobrança, uma frase plausível e falsa é exatamente o que o cliente vai usar contra ti.

A diferença está no circuito. Um assistente ligado ao ERP, só de leitura, recebe os factos já calculados e escreve a partir deles. Cada número no rascunho tem uma linha de origem que podes abrir. Se um dado falta, o rascunho diz que falta, em vez de o inventar. E fica registado o que foi consultado, quando e por quem.

«Só de leitura» também quer dizer outra coisa: o assistente não envia emails, não marca a fatura como cobrada, não altera nada no ERP. Prepara. A pessoa decide.

Isto reduz o risco. Não o elimina. Uma ligação aos dados pode ler um dado errado, e a revisão humana existe por isso.

A objeção honesta: «isto é um mail merge com três modelos»

Em parte, é. E se tens vinte clientes, faturas vencidas raras e uma administrativa que conhece toda a gente, três modelos e um mapa de conta corrente bem filtrado podem chegar. Não precisas de IA para isso, e ninguém te devia vender o contrário.

A IA começa a justificar-se quando as exceções deixam de caber num modelo. O cliente com duas faturas vencidas e uma nota de crédito por abater. O que combinou por telefone pagar em duas vezes e cumpriu a primeira. O cliente espanhol, que deve receber o lembrete em castelhano. O que tem dez faturas pequenas e precisa de uma mensagem só, não de dez. Um modelo fixo obriga alguém a reescrever estes casos à mão. Um rascunho gerado a partir dos factos já os trata, e a revisão passa a ser ler e corrigir, não escrever do zero.

Há ainda uma segunda vantagem, mais discreta: as regras do tom ficam escritas. Hoje, o critério vive na cabeça de uma pessoa. Quando ela está de férias em dezembro, os lembretes param ou saem todos com o modelo seco.

O pior lembrete é o que vai para quem já pagou

Antes de testar, define o que bloqueia um rascunho. A lista mínima:

  • Pagamentos por conciliar. Uma transferência recebida e ainda não associada à fatura faz o ERP mostrar uma dívida que já não existe. Se houver recebimentos por identificar, os lembretes esperam.
  • Data dos dados. O rascunho deve indicar até quando a conta corrente está atualizada. Dados de ontem à noite não sabem o que entrou hoje de manhã.
  • Reclamações, devoluções e notas de crédito pendentes. Não se cobra o que está em disputa.
  • Acordos fora do sistema. Se o comercial combinou um prazo por telefone e não o registou, nenhuma IA o adivinha. É mais uma razão para o comercial ver a lista antes do envio.

A regra é simples: em caso de dúvida, o rascunho não sai e a dúvida vai para uma pessoa com nome.

Quem faz o quê, sem trocar de programa

O canal pode ser o WhatsApp que a equipa já usa, com identificação de quem pergunta e permissões por função.

O dono pergunta «quem tem faturas vencidas há mais de 15 dias e quem já foi lembrado este mês?» e recebe a lista com os níveis propostos. Decide os casos sensíveis, como o cliente grande em formal.

A administrativa de contas a receber pede «prepara os lembretes da semana», recebe os rascunhos agrupados por nível, corrige o que for preciso e envia pelo email habitual.

O comercial recebe, antes do envio, a lista dos seus clientes que vão ser lembrados. Pode pedir para segurar um, com motivo registado. Deixa de ser apanhado de surpresa numa visita.

Comercial no cais de carga do armazém consulta no telemóvel a lista dos seus clientes com faturas vencidas antes de uma visita.

O armazém confirma se a entrega associada à fatura do cliente C ficou mesmo incompleta. O técnico pode ser consultado quando há uma assistência por fechar: cobrar uma fatura de manutenção com a máquina ainda parada é outra forma de perder o cliente.

A Leiritech liga este tipo de assistente aos dados que já tens, só de leitura e auditado, com uma camada semântica pré-construída que traduz «faturas vencidas» ou «atraso médio» para os campos do ERP. Quando a instalação é compatível, arranca em horas. Quando há campos personalizados ou versões antigas, é preciso confirmar primeiro, e dizemo-lo antes de começar.

Como saber, na primeira semana, se valeu a pena

Não meças o prazo médio de recebimento logo à partida. Depende de demasiados fatores e precisa de meses. Mede o que muda já:

  • Tempo por lembrete, incluindo a revisão. Se antes escrever e conferir dez lembretes levava uma manhã, cronometra quanto leva agora.
  • Rascunhos enviados sem alterações, com alterações e deitados fora. Muitos descartados quer dizer que as regras de tom estão mal definidas, não que a equipa falhou.
  • Lembretes bloqueados com razão, como pagamentos por conciliar ou reclamações abertas. Cada um é uma mensagem embaraçosa que não saiu.
  • Lembretes que antes ficavam por enviar. Se a pilha de faturas por lembrar encolheu, a tarefa passou a acontecer.

Faltam pouco mais de duas semanas para o fecho de outubro e 76 dias para o fim do ano. Não é um prazo legal. É só a altura em que a tesouraria costuma pesar mais e os lembretes adiados se acumulam.

Começa pequeno: as faturas vencidas de uma semana, três níveis de tom escritos numa folha, uma pessoa a rever. Se o resultado não te convencer, ficas com as regras escritas e com uma lista limpa, o que já é mais do que tinhas.

Se quiseres testar este caso com os dados do teu ERP, fala com a Leiritech em leiritech.pt. Quem te responde é quem escreve o código.

Escrito por

Equipa Leiritech

A equipa Leiritech — a construir software com inteligência artificial a partir de Leiria, Portugal.

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